sábado, 20 de junho de 2015

JUNHO 2015



O Polvo começou com o tão esperado regresso do João Craveiro que se juntou à Sara Moura e ao Paulo Prazeres para dar início a uma nova sessão. Foi de forma emocionada e genuína que falou do actor Nuno Melo que recentemente nos deixou, e que tem sido uma presença constante nas iniciativas cinéfilas como o Polvo ou o ShortCutz, participando em vários projectos de cinema, desde a curta mais DIY à longa mais apoiada. Obrigada ao Nuno por ter emprestado o seu talento e nos ter premiado com a sua generosidade. 





Eduardo Morais = paixão pela música portuguesa feita filme. Uma breve introdução e seguem os trailers.
“Boa noite, sejam bem vindos a mais uma emissão do Meio Metro de Pedra. O programa que todas as semanas vos conta as histórias que uma data de meninos e meninas andaram a fazer pelo rock do nosso belo país”. Assim arranca o documentário sobre a contracultura do rock’n’roll em Portugal desde o seu surgimento no fim da década de 50 até aos nossos dias. Um dos primeiros exemplos da preserverança e curiosidade incansável deste rapaz quando o assunto é música.

Música em pó, um doc sobre coleccionadores de vinil, desvenda toda uma paixão e uma dedicação por preciosidades e raridades que não se escondem num baú mas em prateleiras que parecem não ter fim. Um deleite para os amantes dos discos old school, negros e brilhantes.
Uivo, um doc sobre António Sérgio, uma das vozes mais emblemáticas da rádio e que acompanhou várias gerações às quais apresentou grandes nomes no mundo da música através do seu programa. Falamos de um tempo em que as novidades apareciam na rádio através das mãos deste senhor, e muitas foram as pessoas influenciadas pelas suas escolhas e pelas novidades que vinham lá de fora. 

Edu fala-nos da gratificação de levar os seus trabalhos pelo país, fora dos circuitos habituais, e perceber que há muita gente interessada nestas temáticas e que gosta das mesmas coisas que ele, conta-nos das dificuldades e vicissitudes da distribuição independente e fica no ar a vontade de ouvir e ver mais deste realizador que agora prepara um novo documentário sobre música electrónica. Mas não falemos da palavra documentário, que ele prefere dizer que faz documentos sobre a história da música portuguesa.
Seja lá como quiseres, cá malta agradece Edu, és um antropólogo musical do caraças!



De novo uma cara conhecida, Reza Hajipour, e desta feita, fazendo juz à fama de um dos mais produtivos realizadores que passaram pelo Polvo, vem apresentar um trailer de um novo trabalho, Opção de vida, um doc que realizou na comunidade de Joinville, no estado de Santa Catarina. 
Focado nas experiências de vários jovens que teve a oportunidade de conhecer quando esteve no Brasil, fica aqui a recolha dos registos dos seus testemunhos sobre o uso de drogas e o impacto que teve nas suas vidas, de que forma os moldou ou de que forma a própria vida molda uma pessoa ao ponto de recorrer à droga como um escape ou um preenchimento de um vazio, talvez uma razão ou um caminho, escolhido ou inevitável. Um relato cru, de imagens nebuladas e palavras duras, sobre a face escondida da sociedade num dos estados brasileiros considerados por muitos como um dos mais “europeus” e desenvolvidos dessa nação. Ficamos curiosos e ansiamos para ver o resultado, Reza. Uma vez mais, bom trabalho!
 


E agora é a vez de dar a voz às crianças grandes. São eles, Gonçalo Freitas, Miguel França, Tiago Castro, André Nacho e Paulo Prazeres. Sim há putos crescidos, ou homens catraios, ou o que quiserem chamar a estes adoráveis geeks. Spoiler Alert tem aqui direito de antena para apresentar a vontade una desta trupe de amigos que se junta para falar de tudo o que tenha a ver com o maravilhoso mundo geek, que é como quem diz,  sobre filmes, séries, animação e tudo in between. 
Apresentam-se mensalmente na Fnac do Chiado para iluminar ou arruinar a cabeça dos restantes geeks que lá aparecem, conforme a sensibilidade dos mesmos perante determinados assuntos, já que pelo que nos contam, alguns membros da audiência saiem para não conhecer algum spoiler sobre, digamos, o Game of Thrones por exemplo. Este Verão não estão previstas mais tertúlias mas estão a ser preparados outros formatos de divulgação para não deixar morna a paixão geek que pelos vistos atinge muita gente e para a qual, felizmente não há cura. Boys will be boys. Mas atenção que o que não falta por aí é muita babe geek; na volta ainda aparece uma trupe de miúdas geeks para fazer concorrência. Uma tertúlia Geekalicious ou Geek'r'Us ou Geek Spot. Isso é que eu gostava de ver. Batalha Geek Boys Versus Geek Girls. Era toda uma série com direito a 10 temporadas! Para os que ficaram curiosos e não temem as revelações do Olimpo da Geekness, libertem o vosso inner geek, visitem a página Spoiler Alert no Facebook and may the force be with you.
Nota de última hora antes da despedida: Existem apoios para curtas-metragens da GDA, avisa o Miguel França. Investiguem e tentem a sorte!



Vicente Alves do Ó é um realizador que ama Cinema, respira Cinema, faz Cinema, sonha Cinema. E fala sobre Cinema também, e perante uma sala atenta e que absorvia todo o seu sensato, acutilante e sensivel discurso sobre o estado do Cinema em Portugal, o Vicente lá foi explicando os seus pontos de vista sobre o que há de bom e o que precisa de mudar. O Vicente não tem medo de tocar na ferida. Já recebeu apoios e agora continua a filmar sem os mesmos. É o que se faz quando se ama o Cinema. Não se pode parar. Um dos assuntos abordados que mais me chamou a atenção porque sou actriz, é a falta que faz os realizadores conhecerem actores, a matéria prima que segundo ele é de grande qualidade. Não vão ao teatro. Não querem saber. E esta tendência estranha de trabalhar com não actores ou em oposição esgotar a cara de um actor que imprime bem até que já nínguem aguenta ver o mesmo actor de sempre nos filmes do costume. Falta vontade política? Talvez até nem passe só por aí. Falta ambição. Falta dar o pulo da curta para a longa. Tentar ir mais longe. Como fez o Vicente com o seu filme Amor Vadio, uma longa-metragem que desenvolveu com uma turma da Act e que conta também com nomes sonantes como a Maria Rueff, Ana Brito e Cunha, Sílvia Rizzo entre outros que aceitaram trabalhar sem garantias mas com uma esperança enorme e uma vontade ainda maior, e cujo trailer nos apresenta agora. Parece que o pitch para pedir ajuda para finalizar o som da pós produção ficou meio no ar porque entretanto a ajuda veio nesse mesmo dia mas ainda assim o Vicente fez questão de ir ao Polvo falar do seu filme, uma comédia romantica, um género desprezado pela Intelligentia, assim como o fantástico, o policial e tantos outros que não vingam num país que sabemos que tem público que consome estes géneros mas ao qual falta ambição e se dobra obediente a uma ditadura bafienta que mina a criatividade. O Vicente veio falar, acima de tudo do amor. Porque no fundo, é disso que se fala nestas sessões. E tudo se resume a isso, a essa palavra tão pequena e gigante, Amor, seja vadio ou não. Talvez a única coisa que nos une, inspira e empurra para a frente. Numa parede qualquer da cidade lê-se Amo-te porque sim. Procurem essa verdade de alguém feita grafitti ou procurem a vossa. Quando o filme sair, podem encontrá-la num Cinema mas mais não conto para não estragar a surpresa. Para essas coisas do spoiler deixo os bons rapazes fazerem o serviço sujo!
Vicente, como nota pessoal, obrigada por aceitares o meu convite. Sei que para muita gente foi muito emocionante ouvir as tuas palavras sobre o teu Amor Vadio e o Vadio Amor que nos une a todos ali, naquela e em tantas outras noites.



E a conversa continua com o Paulo Leite e João Alves. João Alves é já um multi-facetado habitué destas tertúlias tentaculares que nos tem presenteado com jóias como o Bats in the Belfry que ganhou o prémio de melhor curta no MOTELx. Paulo Leite vem com o amigo dar a cara pela Bad Behaviour, uma produtora nacional que quer e vai vingar todos os fãs do fantástico e do horror que têm sede de produções com assinatura portuguesa.

Uma vez mais, um género “menor” volta a ser assunto para satisfação geral. Paulo conta um pouco da sua experiência prévia colaborando com produtoras internacionais, desmistifica a velha ideia de que as pessoas com poder e dinheiro para investir não se interessam pelo Cinema e até deu exemplos mas não revelo para castigar quem não foi e apresenta algumas das pessoas que formam a equipa que deu vida ao projecto Inner Ghosts. 
Alguns deles estiveram lá e são eles Celia Williams Bochmann, Vitor Estudante, Elizabeth Williams Bochmann, Nuno Alexandre Rocha, Catarina Santiago e João Rapaz. É evidente a satisfação nas caras de quem meteu mãos à obra para tornar possível esta primeira longa metragem do João, e o orgulho do Paulo enquanto nos descreve a generosidade da sua “família”. Por uma questão de respeito pelo trabalho feito só nos mostraram fotos para não diminuir o esforço e a qualidade do filme mostrando um teaser que não faria justiça ao mesmo. Compreendemos e esperamos ansiosos por notícias deste lançamento que, pelo que percebi, não só promete uma história de arrepiar como de certeza que vai conquistar mais fãs para o lado negro do cinema. Muahahahahah!




E agora um vídeo clip, ou tele-disco, conforme preferirem. Como sou parte interessada talvez esta parte da crónica resvale para o amor puro ou talvez eu até consiga ser isenta. A noite já vai longa e muito se disse e falou sobre o Cinema por isso o vídeo que dá vida à música (ou será o contrário?) Ela queria da banda alentejana Virgem Suta vem como uma espécie de sobremesa (no meu caso, sobre o balcão da cozinha) depois de um repasto farto e gostoso. 
Gostosa é a história que sem ilustrar a canção, segue o percurso de uma família de aparencia que ostenta uma imagem austera mas por trás dos lençóis encontra o amor. Ó o amor... haveria muito para falar sobre o assunto mas não tenho tempo. 
Para falar da aventura que foi rodar esta loucura num único dia, vai a palco o Lorenzo Degl'innocenti, o realizador desta curta musical, o Jorge Benvinda que veio de propósito de Beja como representante da banda portanto basicamente tivemos meio Virgem porque o Nuno Figueiredo quer é Suta e vinho verde (estou a brincar meus amores), e alguns membros que integraram a equipa, nomeadamente Paulo Lázaro, Ricardo Moura, Neusa Dias e Márcia Cardoso (não conheço).
Não escondemos a satisfação pelo resultado. O Lorenzo ( já agora aproveito para dar  dica para pesquisarem este realizador que já ganhou prémios lá fora nomeadamente com a sua curta de animação Desassossego) conseguiu a proeza de reunir uma equipa incansável que nunca desanimou e repetiu as vezes que foi preciso para conseguir filmar tudo num plano único. Na edição essa ideia foi abandonada para poder enriquecer o vídeo com os melhores momentos de acting e mesmo os que tecnicamente poderiam estar melhor. Isto mostra uma generosidade e um perfeccionismo exemplares. Por vezes tens que abdicar da tua ideia inicial e acabas por ter que optar por outra via e o resultado fica ainda melhor.
Foi um encontro muito feliz de gente feliz, para uma música feliz de uma banda feliz e que esperamos que faça os outros felizes. O conceito é bastante simples, se formos a pensar nisso. O resultado? Eu ia responder Brutal! mas para não me chamarem tendenciosa digo, Vejam. Mas é brutal!
Ou melhor, o final foi bestial, tudo ligou...!



E finalmente é a vez dos putos que foram ao Coachella.
António Almeida e Fábio Lopes da Buzz TV tiveram a bela ideia de ir aos States a um dos maiores e mais emblemáticos festivais daquelas bandas, o Coachella Music and Arts Festival. “Mas vamos mesmo! Bora!” e foram mesmo. E já que iam porque não filmar a experiência? E filmaram mesmo. Sem apoios mas com toda a pica dos seus 20 anos, lá foram eles para L.A. viver o sonho e contrariar os velhos do Restelo que só sabem dizer mal da sua geração.
O António e o Fábio colaboram com a Buzz TV que é um projecto online dedicado à música e que já conta com dois anos de existência.
Quando decidiram avançar com esta aventura depararam-se com a resistência das marcas que os tentavam dissuadir de ir para tão longe quando havia outros grandes festivais na Europa. Na pré-produção foram horas incontáveis de mails e skype até estar tudo pronto. Até em Sunset Boulevard foram roubados, contaram eles a rir.
Mas pelos vistos valeu a pena. O momento alto foi a entrada no Coachella. Choraram.
Ai não...! Até eu chorava se lá estivesse.
Agora que ficou tudo com água na boca para ver o resultado desta road trip movie com direito a Festival como desculpa perfeita, aguardamos pacientemente. Mas não demorem muito a mostrar o vosso This is our work que estas gerações mais vintage como a minha sofrem de ansiedade progressiva, mas sobre isso falaremos daqui a 20 anos boa? 
Só vos digo uma coisa, estes miúdos vão longe! Literalmente!



Não sei como consegui escrever esta crónica dado a problemas técnicos inexplicáveis  porque todo o registo sonoro que guardo no telemóvel se resume aos 10 primeiros minutos da sessão... por isso foi por memória mesmo. E viva a Internet! Espero não estar a cometer erros graves, mas se acontecer digam. Ou um estalo também serve; como Karma is a bitch eu não vou levar a mal. Não perceberam a private joke? Tivessem ido...!
Então tenham um bom Verão e voltamos no fim da silly season com mais surpresas tentaculares!



Ass.: Miss Marsha Cards 


sexta-feira, 17 de abril de 2015

ABRIL 2015

Aniki Bóbó, era a password para entrar. Em jeito de pequena homenagem de uma tertúlia com 7 anos a um Cineasta com 106 e lá vamos nós por ali adentro. Vejamos o que nos esperava...



Kalil é um thriller de ficção que se passa algures no Afeganistão e que nos mostra o dilema da personagem principal que, em nome de alguma dignidade e sobrevivência da sua família, pondera vender o seu rim. O tráfico de orgãos humanos num local onde domina a pobreza, a miséria e se luta pela sobrevivência como pano de fundo de uma reflexão sobre a decadência humana e a podridão com máscara de promessa de um futuro melhor. 
Escrita e realizada por Paulo Zumach que não pode estar presente mas que nos presenteou com um vídeo seu onde nos introduziu ao seu filme antes da sua exibição, Kalil já ganhou dois prémios, melhor cinematografia num festival na Índia e melhor curta-metragem noutro festival em Los Angeles. 
Curiosamente não se integrou até hoje em nenhum festival português por razões de... critérios, dá para perceber? Cheirou-me a lápis azul mas já não vivemos em ditadura, pois não? Pois. Adiante.
Ficamos a saber um pouco mais deste filme na presença da sempre encantadora Isabel Pina, que dividiu a produção com o realizador e que trouxe consigo alguns membros da equipa de rodagem, nomeadamente a figurante Cátia Monteiro de Brito, a São Monteiro, figurinista e make-up artist e o Zé Pedro Alfaiate, perchista, sonoplasta e compositor. Falou-se das dificuldades inerentes a um projecto com estas características e sem budget. Encontrar um local que passasse por uma localidade afegã afinal fica mesmo aqui ao lado, na Malveira. Filmar e refilmar tudo em dois dias. Actores que falassem a língua ou que fingissem muito bem. Felizes encontros de sinergias e esforços em nome de um projecto que foi beber muita inspiração ao exemplo de Reza Hajipour, realizador iraniano que já vive em Portugal há alguns anos e que tem sido uma presença assídua nas sessões do Polvo como um dos realizadores mais produtivos de que há memória. Sangue, licenças, frio, tudo tão intenso como a própria temática desta história. Espero que passe por mais salas. Merece a equipa e o público, com toda a certeza.



A floresta das almas perdidas.
O nome é sugestivo e o trailer não lhe fica atrás.
Esta é a primeira longa metragem do José Pedro Lopes que fundou com a Ana Almeida a produtora portuense Anexo82. E o que é a Anexo 82? “Uma Ideia.”, respondeu o realizador em jeito de brincadeira com o próprio Polvo. Eu diria que é mais que isso. É uma inspiração. Miúdos novos, sangue novo que vem do norte, de onde vem o vento frio e brilhante.
José Pedro explicou que se inspirou na floresta Aokigahara que fica no Monte Fuji, Japão para explorar um tema que o sensibiliza, o suicídio e a partir desta premissa construiu um enredo que envolve duas personagens que se encontram numa floresta conhecida por ser o refúgio final de muitos suicidas. Estas personagens conhecem-se ali mas as suas intenções são bastante diferentes.
A ajudar à conversa juntam-se as actrizes Lília Lopes e Daniela Love que contam as aventuras e peripécias da rodagem deste filme ao longo de 23 dias entre Agosto de 2014 e Fevereiro deste ano na Serra do Caramulo, Porto, Águeda, Vila do Conde e o Lago Glaciar de Sanabria em Zamora, Espanha.
Já a salivar por mais, ficamos como os lobos das florestas negras, mas só sai no próximo ano em circuitos de festivais. Fica a promessa de uma história de terror com uma intriga muito curiosa e com imagens densas e marcantes. Aguardemos então...


Promessa feita, promessa cumprida.
Diogo Andrade volta este mês e traz consigo o resultado do exercício realizado durante o 8º Workshop Intensivo de Cinema Digital. Explica-nos que este Workshop intensivo não obedece nem a periodicidade nem a local e acontece pelo país em datas que se vão programando consoante a existência de convites ou a procura. Desta feita, realizado durante o festival Ficsam, em Faro ao longo de dois dias, sendo que o primeiro dia foi de formação e o segundo, de rodagem.
Mudanças de última hora devido às circunstâncias meteorológicas obrigaram a alterar todo um planeamento e assim surge este Lista de vinhos, com argumento original de João Raposo. Nestes workshops, podem surgir ideias para colaboração como outros artistas, e já houve workshops que surgiram precisamente na sequência de um convite de um artista, como uma espécie de pitch com resolução via dois dias de trabalho intenso. 
Mas falemos desta Lista. Uma história de um reencontro com um prazo de validade previsto de 15 minutos mas que se prolonga ao sabor do tinto inebriante que tinge os lábios das memórias agora revividas pelas personagens. Alguém que insiste em entrar na trama mas fica lá fora, à espera. Finais adiados, falsos finais, saboreiam-se todos os momentos.
Faltou riscar a Teresa, talvez fique para outro filme...


João Carlos Peres e Pedro Cardita, directamente do Montijo para apresentar um Festival, um Concurso e fazer um pitch, em DIY mode. Mas vamos por partes.
O FiCa, Festival de Cinema do Montijo realiza-se para a 29 e 30 Maio, sendo o primeiro dia dedicado a actividades desenvolvidas com jovens e estudantes da zona à tarde e e noite apresentação de curtas sobre e do Montijo e o segundo dia está aberto à participação de toda a gente que queira entrar na aventura, com sessão de self movies com vencedores do desafio lançado às escolas e a sessão de encerramento com curtas nacionais e internacionais. Neste momento, o festival de teor generalista ainda aceita propostas de filmes, e pelos vistos, vai aceitar até dia 27, mesmo até à última, para fechar a programação. Dia 28 fica reservado para fazer as fotocópias, dizem sorridentes.
O conceito do Concurso que só se realizará para o próximo ano é juntar cinco curta-metragens que sejam realizadas por dois realizadores de forma a que se perceba no filme a diferença da realização, ou seja, a história é contada mas a meio muda o realizador e tem que se perceber essa mudança de prespectiva, sendo que o desafio é pegar o fio à meada sem fazer um grande rolo. O argumento continua com o seguimento da história mas a visão, os olhos pelos quais a visualizamos, mudam. Um desafio interessante com a promessa de um prémio entre os 3000 e 5000 euros para o filme vencedor. Nada mau, hã?
Finalmente o pitch da comédia Maluquinho da bola, onde explicam que procuram um técnico de som, um director de fotografia e actrizes que tenham interesse e disponibilidade para filmar no final de Abril e início de Maio. Alguém se oferece? Esta malta está cheia de vontade e sangue na guelra!
Punk is not dead and lives in Montijo.


As Trutas d'Avalon é um projecto de humor que começa agora a dar os primeiros passos. Idealizada como uma série de episódios para serem divulgados na web, tem como denominador comum o humor sem filtros de censura, idealizada e escrita pelos seus próprios protagonistas.
Esta noite brindaram o público com A psicóloga e Pai inconveniente os dois primeiros episódios que já circulam por aí.
Cristina Basílio e Jorge Picoto juntam-se a um dos apresentadores da noite Paulo Duarte Ribeiro e juntos vão explicando as vantagens que há em escrever para actores quando se é actor. A equipa é pequena e o trabalho gigante mas o resultado parece cativar muita gente e é óbvia a satisfação na cara dos criadores. É preciso muito empenho para levar a cabo a tarefa de criar, filmar e apresentar semanalmente um episódio, mas há que embarcar nesta lúcida loucura. E se juntarmos no caldeirão a cumplicidade óbvia de profissionais que se conhecem muito bem e uma dose grande de tonteria com uma pitadinha de disparate, a mistura torna-se explosiva e nascem episódios vindos da brumas do non sense e do puro encantamento. Perlimpimpim, tragam mais Trutas, se faz favor.


E de um trocadilho com um mundo perdido da magia passamos para um mágico mundo encontrado. É a vez do outro apresentador desta tertúlia, o Paulo Prazeres chamar até ao palco as outras partes do trio maravilha, Patrícia Guerreiro e Marzia Braggion, da equipa da DROID-id para falar um bocadinho deste segundo capítulo sobre o Boom Festival, a We Are Love webseries. A colaboração com o Boom não é de agora e já no ano passado, Paulo Prazeres pode apresentar ao Mundo o resultado dos esforços da sua equipa maravilha, traduzidos no incrível documentário em duas partes The alchemy of Spirit.
Depois do primeiro episódio, a curta documental The Feminine, temos esta noite a oportunidade de ver Permaculture, o segundo da lista que explora o conceito de auto-sustentabilidade do festival. Porque há muito que o Boom deixou de ser um festival exclusivo do transe procurado por malucos que só pensam em consumir drogas durante uma semana até cair para o lado. O Boom continua a ganhar prémios internacionais como bandeira da auto-sustentabilidade e de sensibilzação ecológica. Como vemos no doc, há plantações de vegetais biológicos onde as pessoas podem ir colher a sua comida e o espírito de ajuda e partilha respira-se no ar.
O Boom é um espaço de reflexão, bem estar, diversão, paz, arte, talvez até uma utopia feita realidade, um mundo ideal para muitos, cada vez mais a ver pela procura. São viajantes de todas as partes do Mundo que de dois em dois anos rumam até Idanha-a-nova à procura da magia que só se encontra no Boom. Ao ver as imagens, os sons, os testemunhos dos organizadores e dos boomers, percebo perfeitamente porquê.


E ainda imbuída neste espirito do We are One, escrevo esta crónica, sobre uma sessão tentacular com alguns problemas técnicos que se tornaram irrelevantes perante a comunhão de ideias e filmes que por ali passaram. Lá fora a chuva não caía como promete o ditado de Abril mas mil ideias já me passavam pela cabeça... que tal uma espécie de Boom mas de rock de fusão afegã numa Floresta cheia de almas das que se perdem e das que se encontram, que servisse Trutas d'Avalon, tivesse Lista de Vinhos para todos os gostos, até para os Maluquinhos da bola e tudo. Dava um grande workshop intensivo! Com direito a prémios e tudo! Revolution for the people!
"É impressão minha ou vi ali uns rockeiros a dançar ao som de J-Lo?", pensei eu. A noite já vai longa e podia estar a alucinar. Mas não, está mesmo a acontecer e eu estou ali no meio. É rir, minha gente, é rir que do riso ainda não nos pedem imposto. Nem das tristes figuras que fazemos nestes filmes felizes. É rir!
Viva o Polvo! Viva!

Sloosh

Ass.: M.



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Próxima sessão é dia 13 de Abril!

Sentes-te sufocado? Tens coisas a dizer mas falta-te a coragem? Quem te ouça? Não tens quem te ajude?
NÓS TEMOS A SOLUÇÃO!
O próximo dia 13 é a oportunidade que precisas para fazer o teu pitch.

 
Se tens uma ideia, o Polvo é o lugar para a partilhares.
Para além de ficares a conhecer o trabalho de vários profissionais da área do cinema, audiovisual e todas as ramificações do meio, abre-se sempre a oportunidade de apresentar uma ideia, uma proposta, um conceito. Em breves minutos podes explicar de forma sucinta e, de preferência, apelativa, qual a tua ideia e o que precisas para a concretizar. Muitas boas ideias já se materializaram depois de passarem por uma destas tertúlias cinéfilas.
No Polvo, todos são bem vindos e todas os projectos são válidos. Graças à colaboração entre vários tentáculos, muitos sonhos de gaveta passaram para a projecção numa tela. Porque por cá, os tentáculos não sufocam. Afagam. E não se afogam.


Dia 13. 21h30. Music Box. Vem. A entrada é livre mas vão pedir-te uma password. Como não vou dar a sopa toda feita deixo duas pistas: em jeito de homenagem a um dos mestres do cinema português que recentemente nos deixou depois de 106 belos anos de vida, a palavra passe deste mês é um dos títulos dos seus filmes e mete crianças. Se não chegas lá por ti, então se calhar o Polvo não te vai dizer grande coisa. Mas tenta. Na volta até gostas. A menos, claro, que tenhas melhor programa para uma segunda-feira à noite...
Opa, aparece.
Para mais informações sobre o evento segue o link e procura pela Página do Polvo no Facebook (ou vê aqui, mesmo ali em cima no canto direito e carrega nos dois links, super fácil, não custa nada.)

https://www.facebook.com/events/365898593614516

Ah... ainda não sabes o que é o Polvo?
É uma ideia.
E a tua, qual é?

sábado, 21 de março de 2015

MARÇO 2015

A noite prometia. 
 
 
Um instrumento como única presença num palco despido. Uma sala bem composta, curiosa mas tímida.
As boas vindas dos já icónicos apresentadores, desta feita o grande Paulo Duarte, a bela Sara Moura e o omnipresente Paulo Prazeres, os inquéritos habituais ao público, e sobe ao palco o Mestre Braima Galissá.




Presos a vinte e uma cordas, fomos todos embalados pela magia do Kora. Uma breve introdução ao mundo misterioso e encantatório desta sonoridade que vem de terras africanas. Ninguém respira enquanto o Mestre está em palco. Ou talvez seja precisamente esse o momento que se respira melhor. Em uníssono, transportados para um lugar onde o tempo tem outro ritmo. 
Os contadores de histórias, os antepassados, o orgulho das origens, os mitos e as lendas que passam a ser as verdades de um povo. O Kora é da Guiné-Bissau, corrigem os locais, reclamando para si a origem deste instrumento. Uma dádiva de Deus, contam, e cabe a cada um acreditar ou não.
Se alguma dúvida há sobre a existência de algum deus não resta nenhuma sobre a centelha divina que mora nas cordas do Kora. E este é maior trunfo do documentário de Jorge Carvalho, uma reflexão sensível e encantadora sobre a cultura musical Mandiga, que nos leva pela mão através das vozes e sons de um povo que ama, que é o Kora. 
Fica a vontade de ver o documentário na sua versão completa mas estamos já rendidos ao primeiro toque do Kora e às sábias palavras do Mestre.



Cores, ambientes, sombras, frio, calor, luz. 
Foram muitas as palavras para traduzir a importância do Color Grading no resultado final de um filme. No reel de Nuno Garcia e Rodrigo Brazão, e na voz presencial do Nuno, Demystify Color Grading demonstra a importância da correcção de cor e como a mesma pode alterar por completo o feeling de uma cena e dar até o próprio mote de toda uma sequência em filme. De sublinhar, fica a preocupação de sensibilizar para a importância de estar presente no set de filmagens para poder trabalhar e corrigir no próprio local em oposição a tentar corrigir em pós produção, facilitando assim todo um processo de trabalho criativo. Pode ser a diferença entre salvar um filme no plateau ou salvar um filme quando já não há muitas voltas a dar. Fica o alerta. Nestas coisas de filmes cada profissional é precioso no seu campo de expertise e todas as competências devem ser valorizadas para conseguir um resultado feliz, indepentemente do formato em que se apresenta. Fica a pergunta na minha cabeça: afinal quantos amarelos existem? E poderá um amarelo tornar uma cena fria? Devia ter feito a pergunta mas a timidez impediu.



Sugar girl 
O título convida a pensamentos lolitianos mais perversos mas depressa se percebe nesta curta-metragem de Bruno Simões que o 'leitmotiv' para esta história é o amor. O de passagem, o que chegou mesmo a tempo de dizer adeus, o que não tem palavras para se explicar, o que confia apesar do receio, o juvenil de verão, o de uma miúda de olhos claros e translúcidos e o de um miúdo de voz desaparecida e translúcida. E há um cão desaparecido que é a cola deste puzzle.
“Nesta curva tão terna e lancinante que vai ser, que já o teu desaparecimento, digo-te adeus, e como um adolescente tropeço de ternura por ti.” são palavras que me passam pela cabeça enquanto vejo esta curta-metragem. Não são minhas as palavras, são de Alexandre O'Neill. Mas esta história de amor inglesa podia ser de qualquer parte de mundo e podia acontecer a qualquer um... aliás, pergunto-me se haveria alguém naquela sala que não se reconhecesse nem que seja por um momento em algumas daquelas imagens. Numa palavra, um mimo.
Seguiu-se uma conversa com o Bruno, o realizador e com o Ivo Cordeiro, o director de fotografia sobre o processo, a escolha dos actores, a história... mas na minha cabeça ainda os olhos da rapariga, a voz do rapaz e o cão. Os grandes amores nunca chegam a partir pois não?



Podem também nunca chegar.
Não é o caso do Stephen. 
Chegou a Lisboa há já algum tempo e apaixonou-se. Pela cidade.
Para quem é habitué do Polvo pode já ter-se cruzado com algumas das suas curtas e todas são muito especiais apesar de muito diferentes. 
Listenhunde é um projecto final de curso, foi rodada em 10 dias e montada em dois meses. Sem dinheiro. Com excepção ao que se pagou ao treinador do cão...
Um exercício comovente, cru e poético sobre a história de um rapaz condenado à prisão e do seu cão. O que fazer com o seu companheiro? Deixar com quem? Como é que se faz para abandonar um amigo, deixá-lo para trás?
“Where is the love and the absence of this love.”, explica o realizador alemão, são as questões que impõe nas suas criações.
Stephen Cornelius Tralles chegou a Portugal com uma história na cabeça e apaixonou-se por Lisboa. Quer conhecer e trabalhar com o maior número de pessoas que quiserem e precisarem dele, reforçou essa ideia. O Stephen chegou e não larga o osso. Pessoalmente, só tenho uma coisa a dizer.
Fantastisch!



Numa sessão onde não houve pitch, uma última intervenção do Diogo Andrade que veio com a intenção de nos apresentar uma curta-metragem resultado de um workshop e que serviria para promover também o próximo workshop no Braço de Prata a 25 e 26 de Abril. A curta não veio mas fica a promessa de apresentar em Abril, o mês das promessas. Começa a música via DJ The Lonesome Spit, esse grande nome da cultura underground whatever fuckin' awesome e finda a sessão.


Segue-se uma noite repleta de imberbes estrangeiros que estão longe de imaginar o que acabaram de perder, muda-se o ambiente, o dj, a música já é outra. Para os resistentes ressoa ainda o Kora e imagens fortes demoram a arrastar-se para fora do domínio do pensamento.

Não sabemos ainda que surpresas nos reserva a próxima tertúlia cinéfila, mas Março foi sem dúvida marcado por uma sessão profundamente emotiva. Quem foi, sei que gostou pelo que se comentava no salão do social, entre uma cerveja e um cigarro. E aposto que volta, e até que traz um amigo. Também pode trazer um inimigo para ver como é que se faz. Ou um alien, ou um cravo, ou uma ideia, ou um teaser, ou um vídeo, ou uma curta, ou um reel, ou um sonho, ou um smartphone, ou uma revolução, ou um projecto, ou uma Alice, ou uma vontade.
Tragam vontade.

E agora, com vossa licença, bom apetite e um profano pulo primaveril. Atchim.



Sloooosh



Ass.:  Miss Marsha Cards


P.S. - A noite cumpriu.